Peculiaridades do idoso com câncer

file0001702140562Estamos vivendo uma fase crescente de envelhecimento populacional. Este fenômeno está atingindo quase todos os países, desenvolvidos e subdesenvolvidos, incluindo o Brasil. Hoje a expectativa média de vida ao nascer em nosso país é de 72 anos, enquanto que em 1970 era de aproximadamente 57 anos. As pessoas estão vivendo mais tempo e ao que tudo indica, podemos dizer que, em um futuro próximo, a maioria das pessoas viverá cerca de 1/3 das suas vidas na chamada terceira idade. Esta mudança na constituição da população é acompanhada de uma transformação no perfil de doenças mais frequentes, com aumento significativo de doenças crônicas e de câncer. Dados americanos mostram que 60% da incidência do câncer ocorre acima dos 65 anos de idade.

É diferente ter câncer aos 40 anos e aos 80 anos? Sim, existem muitas diferenças, desde a manifestação inicial, o plano de tratamento, o seguimento e o prognóstico. Destacar estas peculiaridades é o objetivo desta coluna e hoje vamos conversar sobre algumas delas.

Quando o câncer aparece em uma idade mais precoce, o corpo conta com toda a estrutura fisiológica para combatê-lo. A integridade dos órgãos e tecidos geralmente é mantida durante o tratamento e isto permite que a abordagem seja focada no tumor. Ainda assim, sintomas indesejados podem surgir, como complicações infecciosas e efeitos colaterais das medicações. Os idosos, mesmo aqueles considerados saudáveis, exibem maior dificuldade em manter o equilíbrio no funcionamento do organismo quando ele é acometido pelo câncer.

Faz parte do processo de envelhecimento normal a redução na capacidade dos órgãos de reação ao stress. Chamamos esta situação de diminuição da reserva funcional. Trocando em miúdos: imagine um idoso com exames gerais normais sobre o funcionamento dos órgãos; quando ele é acometido por alguma intercorrência, seja ela um trauma, uma infecção, uma internação hospitalar ou mesmo o câncer, o corpo evolui mais frequentemente com complicações e tem mais dificuldade para retornar ao seu estado basal.

Somado a isto, podemos ter a presença das comorbidades. Este é o nome dado às doenças que coexistem com o câncer, como hipertensão arterial, diabetes, depressão, demência, osteoporose, entre outras muito comuns na população acima dos 60 anos. Se estas condições não estiverem compensadas, o paciente pode ter sintomas comumente confundidos com os efeitos do tratamento oncológico. Por exemplo, emagrecimento e sensação de fraqueza pode ter múltiplas causas como depressão, diabetes descompensado ou mesmo a sarcopenia, que é uma redução importante da massa muscular.

Por outro lado, o idoso sofre mudanças positivas em alguns aspectos da personalidade, que podem ajudá-lo a lidar melhor com o diagnóstico de câncer. Algumas pesquisas sobre a psicologia do envelhecimento apontam para um aumento da capacidade de adaptação a eventos estressores ao longo da vida, envolvendo habilidades de controle emocional, alinhamento de expectativas e prioridades. Gerir novos objetivos e adaptar-se a limitações pode ser mais fácil para o idoso do que para o jovem. Assim, apesar da maior fragilidade física, o suporte psíquico pode fornecer maior subsídio para o combate à doença e deve ser valorizado.

O cuidado com o idoso envolve a compreensão do indivíduo como um todo, suas preferências, capacidades e limitações, histórico de doenças, uso de medicamentos, aspectos familiares e sociais. O amplo espectro de fatores influenciadores sobre o processo de envelhecer torna-o extremamente heterogêneo e nos impulsiona a não delimitar condutas baseadas isoladamente na idade. Por isso, a participação ativa dos familiares, cuidadores e dos próprios pacientes é essencial para este entendimento.

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